BlogBlogs.Com.Br Confraria Ekklesial: Janeiro 2006

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Cartões: Dinheiro ‘de ninguém’

Frei Betto *

"Este dinheiro não é de ninguém. É dinheiro público, da prefeitura", afirmou o empresário André Wertonge Teixeira a Bruno Marzano, assessor da prefeita de Magé (RJ), em gravação registrada pela investigação de fraudes em compras que teriam gerado, em um ano, prejuízo de R$ 100 milhões em seis prefeituras fluminenses. Essa a lógica de todos que abusam de recursos públicos. Fingem ignorar que se trata de dinheiro do povo. Bem diz Aristóteles: "O poder desperta a ambição e faz multiplicar a cobiça".

A poderosa máquina do Estado não gera um centavo; capta bilhões através do insaciável apetite do Leão: a multiplicidade de impostos, que agora a reforma tributária promete reduzir, unificar e até isentar... os ricos, evidentemente.

São vocês, leitor e leitora, que com seu trabalho sustentam os governos e pagam todos os salários, do presidente da República ao faxineiro da cadeia pública, dos juízes ao porteiro da escola municipal. Ora, a idéia de que dinheiro público "não é de ninguém" suscita, em pessoas desprovidas de valores éticos, aquela comichão de quem acha na rua uma nota de cinqüenta reais: o que não é de ninguém, é meu. Assim, o público é apropriado pelo privado e o coletivo pelo indivíduo.

Por que existem cartões de crédito e débito? Porque incentivam o consumo e evitam que se leve dinheiro no bolso nesses tempos em que amigos do alheio andam à espreita. De posse do cartão, perde-se um pouco a dimensão dos gastos. Basta passar a moeda de plástico numa maquininha e, pronto! O produto está adquirido e a conta paga.

Se essa síndrome do consumismo é estimulada pelas operadoras de cartões, que por isso cobram juros exorbitantes, o que dizer do funcionário público que lida com dinheiro que não é seu? Se não discerne entre o suficiente e o bastante, cai facilmente em tentação. Poupa o seu dinheiro e vai à farra e à forra com o "dinheiro de ninguém".

É claro que, entre os 11 mil portadores de cartões corporativos do governo federal, nem todos são tão glutões no consumo quanto o reitor da Universidade de Brasília. A maioria é gente honesta e criteriosa. E muitos servidores nem sequer aceitaram portar cartões. Pressentiram que a ocasião faz o ladrão. Porém, tudo indica que uns tantos não tiveram o menor escrúpulo de torrar o nosso dinheiro em consumo desnecessário, supérfluo. E, descobertos, ainda insistem em nos chamar de bocós ao apresentar malabarísticas justificativas de como oneraram os cofres públicos.

Agora, a CPI promete investigar o uso e abuso dos cartões, para saber quais passaram de corporativos a cooperativos... com o próprio bem-estar do usuário. O Planalto deu a mão à palmatória e se adiantou ao baixar instruções que limitam os saques em dinheiro. Reconhece, pois, que havia, sim, algo de podre no reino que não é o da Dinamarca...

Quem tem medo da CPI? Se portadores de cartões agiram com integridade, que se investigue e demonstre à nação que são caluniosas as denúncias de malversação. Se há corrupção, deve o governo se antecipar e punir exemplarmente os culpados. O que não se explica é temer transparência no uso do dinheiro público. Afinal, ele é, sim, de alguém. É de todos nós que trabalhamos, geramos riquezas e pagamos impostos. E esperamos retorno à altura de nossos direitos e necessidades. Temos, pois, o dever de fiscalizar e exigir prestação de contas da fortuna depositada em mãos das autoridades graças ao nosso sangue, suor e lágrimas. Apenas em janeiro deste ano, e sem a CPMF, o governo federal arrecadou R$ 62,5 bilhões.

Há 119 anos D. Pedro II escreveu em carta de 1o de janeiro de 1889: "A política de nossa terra cada vez me repugna mais compreendê-la. Ambições e mais ambições do que tão pouco ambicionável é."

Lidar com dinheiro alheio exige humildade, vocábulo que vem de húmus, terra, ter os pés na terra e não a cabeça nas nuvens. E requer auto-estima, saber viver segundo as limitações de seus próprios recursos, sem invejar os ricos ou pretender ingressar no seleto clube da opulência pelo beco da falcatrua.

Se corrupção existe é devido a uma única causa: a impunidade.

* Frei dominicano. Escritor. Autor de Calendário do Poder (Rocco), entre outros livros.
(Fonte: Adital)

Teatro Cristão. Onde???

Acho que eu posso afirmar que todos nós, de alguma forma, nos relacionamos diariamente com a arte, seja ouvindo uma música no carro naquele trânsito caótico, ou andando a pé quando passamos em frente a uma escultura numa praça... eu que trabalho em plena Praça da Sé posso dizer que é imensa a quantidade de obras de artes plásticas em locais públicos, e que muitas vezes não damos a mínima atenção.
Mas a gente pode também se encontrar com a arte de maneira mais formal, indo a um espetáculo de dança, uma exposição de pintura, um concerto ou show musical... O que eu quero dizer é que a arte faz parte do nosso dia-a-dia e eu não acho que isso acontece por acaso.

A arte, como resultado de uma expressão genuína da criatividade, da imaginação, ou como disse Leonardo da Vinci que: “a arte é coisa da mente” – essa expressão existe desde o início do mundo. Para citar apenas um exemplo, podemos lembrar que os escritos mais antigos da Bíblia estão repletos de poesia hebraica.

No meu entender, já que o homem herdou a semelhança de Deus, herdou também Sua criatividade e por isso se expressa de forma criativa e com arte. O prazer pela beleza está tanto no homem quanto em Deus. Em Gênesis 1:31 diz o seguinte: “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom”. [Bíblia Ave Maria]

Daí eu tiro nossa 1ª idéia: o homem está inseparavelmente ligado às artes.

Schopenhauer, mesmo sendo um filósofo dos mais pessimista, elevou a arte a uma categoria suprema e reconheceu que a contemplação é uma forma de neutralizar o sofrimento existencial. E então... será que alguém arrisca dizer que isso não tem nada a ver com a história de Davi tocando harpa prá Saul se sentir melhor?
Vou repetir: Schopenhauer, falando sobre a arte, reconheceu que a contemplação é uma forma de neutralizar o sofrimento existencial.

Está bem, mas e o teatro? Onde entra nessa história?
O tema do encontro de hoje é: “Teatro cristão. Ficção ou realidade.”
Honestamente, o que eu posso dizer é que eu não vi o teatro cristão. Confesso que nem sei se ele existe mesmo. Mas, se ele realmente existisse e cruzasse comigo por aí, acho que passaria por ele sem o reconhecer.

Mas vamos pensar por enquanto no surgimento do teatro.
Na definição clássica, a hipótese mais aceita é a de que o teatro nasceu nos cultos a Dionísio (que é o deus grego do vinho e da fertilidade, das fontes da vida e do sexo).
Isso aconteceu na Grécia, por volta do século IV a.c.
A cada safra da uva eram feitas festas, por meio de procissões, de agradecimento a Dionísio e com o passar do tempo, estas procissões foram ficando tão elaboradas que passaram a contar com dirigentes de coro, que organizavam os atos e as representações da procissão, além de narradores e atores que eram aqueles que se destacavam na massa de gente que participava.

Bem, eu não sou historiador, e nem vocês, imagino, gostariam de detalhar demais a história do teatro nesse pouco tempo que temos, mas só acho legal lembrar de algumas coisas... Vejam só:

1º) O teatro nasceu de um ritual de culto a um deus;

2º) Até por volta do ano 1000 D.C. a igreja católica proibia o teatro e ameaçava os atores com o fogo do inferno, mas depois de algum tempo passou a utilizá-lo como celebração religiosa ou ferramenta para o ensino. Até na época da colonização do Brasil isso aconteceu por aqui, quando o teatro foi usado pelos missionários jesuítas para catequizar os índios. Há registro de que o Padre Manuel da Nóbrega encomendou autos ao Padre José de Anchieta, e estes autos eram, na verdade, peças de circunstância, que ele adaptou a partir do esquema de teatro medieval que ele conhecia na Europa.

Por muito tempo, a atividade teatral ficou centrada na questão religiosa.

E as parábolas que Jesus contou?

A parábola foi um gênero largamente usado por Jesus, e é caracterizada por uma narração figurativa ou simbólica que, por comparação, apresenta uma razão moral.
A gente até poderia imaginar que se os discípulos levassem um pouquinho mais de jeito, Jesus os colocaria prá encenar as parábolas...mas, na verdade, Jesus já estava praticando a contação de histórias, que é uma coisa supervalorizada hoje, depois de algum tempo esquecido.

E hoje, qual é a nossa realidade? Como as igrejas têm encarado o teatro, tanto aquele que é feito dentro da igreja como, por exemplo, aquela situação em que um cristão torna-se ator? Ou ainda, um ator que se converte e vai parar numa igreja? O que a gente tem visto dessas situações?

Eu penso que o teatro ainda é usado na igreja apenas como complemento ou apoio à pregação, seja prá ilustrar passagens bíblicas, seja num culto ou evento dito evangelístico, onde se encena aquela peça do cara mau e drogado que se converte e que instantaneamente quase se transforma num anjo. Sem falar naquela famosa peça de natal encenada no culto especial no fim do ano.

Eu não vou dizer que seria errado montar um grupo de teatro na igreja com essas finalidades, mas eu acho no mínimo que é pouco. É ficar longe da sua potencialidade.

Mas por que estou dizendo isso? O que eu acho estranho é considerarmos que a nossa vida, mesmo a vida do cristão, se resume exclusivamente à redenção e que apenas temas em torno disso seriam adequados ao cristão.

Eu penso que a chamada arte cristã tem sido considerada irrelevante, dentre outros motivos, pelo fato de muitos cristãos acreditarem ser desnecessário se preocupar com as ansiedades contemporâneas. Isso seria a secularização. Afinal, Deus já não cuidou de tudo?

Desse jeito, antiquada e irrelevante, a arte criada por cristãos costuma estar desconectada da realidade das pessoas, ficando restrita aos meios da subcultura cristã, já que é especialista apenas no porvir, tendendo ignorar a experiência de existir no tempo em que Deus nos deu aqui na Terra.

Só que qualquer trabalho teatral que busque sinceridade e reflexão sobre a vida vai ter que lidar necessariamente com a imperfeição humana.

Ao contrário de um sermão convencional, que pode, por exemplo, ser apresentado como uma exortação, um desafio pessoal ou um ensinamento, o teatro tem a chance de provocar a reflexão ou uma reavaliação, a partir da auto-crítica, do absurdo, da ambigüidade, do riso de si mesmo, do drama, mas sempre a partir da exposição de um conflito.

A ação dramática é a exposição de conflitos e o conflito é a relação dramática essencial nas artes e em especial no teatro.

É muito bem possível encenar uma peça em que se apresente valores do Reino de Deus como a liberdade, o perdão, a justiça, e isso ser feito a partir da exposição de conflitos que toda pessoa comum passa. Isso vai dar mais autenticidade ao espetáculo.

E falando em autenticidade, podemos pensar numa outra coisa: como fica a questão da habilidade técnica? A expressão artística depende da habilidade técnica? Isso é mesmo imprescindível?

Vejam, não existe uma definição unânime para o que seja a arte, apesar de se tentar isso há séculos. Porém há uma concordância de que, seja lá o que for a arte, ela é expressa esteticamente por meio de uma técnica.

Então o que eu posso deduzir disso? A arte é coisa da mente, mas só passa a existir se for expressa por uma técnica, ou seja, é aquela habilidade de escrever, de pintar, de dançar ou de encenar, por exemplo. E essa técnica é então fixada num suporte.

Quando um compositor grava um CD, lá está a sua arte fixada num suporte tangível, material, que é o CD. O mesmo acontece com uma escultura, ela estando ou não exposta ao público, continua existindo.

Mas e o teatro? Em qual suporte o teatro é fixado?

Uma característica peculiar do teatro é que ele é uma expressão artística fixada num suporte INTANGÍVEL, por isso, até é chamado de arte auto-destrutiva, porque ele existe apenas na duração do espetáculo.

Sobre isso , o diretor de teatro Peter Brook disse uma frase interessante:
“O teatro é uma arte sempre escrita no vento”

Prá encerrar, eu quero deixar a seguinte idéia:

A arte não precisa de justificativa para existir, mas quando estamos diante dela, ela sempre nos exige alguma resposta.

Esta característica da arte deveria nos ajudar a transmitir nossa visão de mundo cristã às pessoas de maneira mais autêntica e criativa, até mesmo porque, como escreveu Steve Turner no livro “Cristianismo Criativo?”:

“A arte tem a tendência de mostrar ao invés de dizer”.

Obrigado.
ψ

Carlos Eduardo Pereira
I Fórum Nacional de Cristianismo Criativo
19/11/2007

Arte e Cultura - Perguntas para se pensar:
Somos nós a alternativa para a cultura?

Nossa fé é reconhecida pelos de fora, como viva e verdadeira, autentica e frutífera, transformadora e compassiva? Diante dos desafios do mundo moderno, que tipo de progresso nossa fé e o Evangelho estão alcançando?

Essas são algumas das questões que nos tiram o sono. Quando a insônia é demasiada e você precisa relaxar um pouco. Vá ao cinema. Assista por exemplo Tropa de Elite.

O fio condutor de Tropa de Elite é o Nascimento e a Morte. Não estou falando do Capitão Nascimento, apesar de que vemos a morte promovida por Nascimento (o capitão).

A Arte (permita-me destacá-la com maiúsculo) retrata a vida como ela é. As artes (nas suas mais diversas manifestações) explicam nossa época, nossa história, nossas limitações, nossos dilemas. O fio condutor da Arte ao longo dos Séculos tem sido o Nascimento e a Morte. A busca pelo sentido da vida.

É essa busca que transforma nossa existência em uma jornada, uma peregrinação. A Arte vem a ser nosso espelho. A Arte nos revela. A Arte nos estimula.

Por que o cristão não se engaja de maneira efetivamente comprometida com as artes? Qual a razão para o cristão não participar desse diálogo. Arte é conversa, é interação, é manifestação, é ação e reação.

Em tese, se bem endereçada a questão – o dilema, o desafio, a jornada, a busca ... nós temos a resposta. A triste realidade é que na maioria das vezes, nós damos respostas erradas, nos momentos errados, nas formas erradas, pelos protagonistas errados, para os ouvintes errados.

Imagine os grandes nomes do evangelicalismo nacional da atualidade. Aqueles líderes que mais tem impactado o dia a dia brasileiro, a esfera pública, com sua fala, sua imagem, sua pregação, sua influência. É muito provável que sejam nomes que vem da televisão. Alguém que nos persegue – quer diariamente ou semanalmente. Esses nomes que você e eu estamos pensando ... Numa nota de 0 a 10 – onde 10 está para Orgulho Perfeito e 0 para Vergonha Extremada, que notas recebem esses líderes que você pensou?

Gente só estou perguntando! Como bom corinthiano – limitado e semi-letrado, só quero aprender.

Qual impacto o cristianismo assim representado, terá na cultura? No País? Na sociedade, na transformação, nas melhoras? Junto ao povo, na injustiça, na péssima qualidade de ensino, na perspectiva para as futuras gerações? E nos índices que retratam os principais problemas que nos afligem como nação, como sociedade e como indivíduo: corrupção, violência, ecologia, distribuição de renda, qualidade de vida, infra-estrutura, desemprego, sub-emprego, falta de qualificação ... Esses índices, melhoram ou pioram? De novo gente, só estou perguntando! Como bom corinthiano não tenho todas as respostas. Quero dividir essa responsabilidade com vocês!

Voltando para o filme Tropa de Elite, temos um exemplo latente e vigente do dilema do homem moderno. No caso é o dilema do Capitão Nascimento que quer sair do BOPE - sair e sair vivo, em meio a tantas mortes, para curtir o nascimento e a vida de Nascimento Junior (ou Rafael). Tudo isso num contexto que retrata o desafio sociológico-carioca da pobreza, do tráfico, da polícia, da corrupção, do bem contra o mal, e do mal contra o bem, do estado, da vida, da família – enfim o mundo que nos cerca, não importa se neste ou noutro estado.

E para tantos outros bons filhos que se identificam com um ou outro personagem, o filme retrata a vida como ela é, com seus dilemas, decisões, limitações, frustrações, incoerências, perdas, angústias, mortes e ... onde está o sentido da vida?

Sou corinthiano, só estou perguntando...

Estamos num grande caldeirão (uma grande piscina) – essa é uma excelente analogia que encontrei. Ajuda a descrever o estado das coisas para o homem no século 21. E a composição dessa ‘sopa’ em que nos encontramos mergulhados é:
Sexo;
Sexualidade;
Televisão;
Música;
Filosofia;
Publicidade e propaganda;
Política pública;
Política;
Mundo corporativo;
Esportes;
Aquecimento global;
Terapia;
Auto-ajuda;
Arte kitsch;
e mais publicidade e propaganda.
(Essa lista eu tirei da entrevista do professor Kevin Vanhoozer que está para lançar o livro com os papers de seus alunos na Trinity Evangelical Divinity School. O nome do livro: Everyday Theology – que pode ser: A Teologia do Cotidiano).

Vivemos tempos em que essas coisas são mais para caldeirão do que potinho. Ou seja, cada vez mais, nossos interesses, estudos, atuações... tudo, enfim envolve cada vez mais diferentes áreas, sempre muito mais próximas e sobrepostas umas às outras. A cor da nossa vida é muito mais cinza do que preto e branco (pra tristeza dos corinthianos).

Quero destacar uma frase que me persegue. Coloquei-a como bandeira no topo de meu blog. Tirei do irmãzinho Martinho Lutero (corinthiano de longa data):



Se eu professar com a voz mais alta e com a mais clara exposição cada pormenor
da verdade de Deus, exceto precisamente aquele pequeno ponto ao qual o mundo e o
demônio estão naquele momento atacando, eu não estou confessando Cristo, ainda
que ousadamente eu possa estar professando a Cristo. Onde a batalha trava-se,
ali a lealdade do soldado é provada, e estar em outro campo da batalha que não
este é apenas deserção e desgraça, se ele foge deste ponto.

O que está claro para mim é o seguinte: com toda a força da pós-modernidade – principalmente entre os educados (corintianos inclusos – de nível universitário) e os urbanos, é que as coisas mais do que se cruzam re-moldando uma sinuosa linha fronteiriça. O que acontece é que nem mais linha ela é! As áreas de um e de outro lado, na verdade se misturam e criam uma extensa e larga zona não militarizada – onde não existe batalha, luta ou guerra de fato, de direito e de verdade (por mais que os nossos pastores – corinthianos e outros – insistam no contrário).

E por mais paradoxal que pareça – é justamente nessa zona não militarizada que a nossa batalha tem que acontecer! É nesse largo e extenso território em que estamos gastando boa parte de nosso dia e de nossas vidas, que temos a oportunidade de gerar influência, de transformar, de modificar, de conquistar corações e mentes...

Nossa batalha que é uma batalha de compaixão, de amor, de dedicação, carinho, paciência, sacrifício e altruísmo. De nos mostrarmos cada vez mais bem aventurados e menos aventureiros...

O texto a seguir tem 5 dias de idade. É uma transcrição do discurso do escritor israelense Amos Oz ocasião de sua premiação pela Fundação Príncipe das Astúrias, na Espanha (e foi traduzido corinthianamente por mim). Ilustra a potência que tem uma arte:



O mundo da literatura pode encorajar a compreensão entre inimigos amargos.
Se você comprar uma passagem e viajar para outro país, é provável que você veja monumentos, palácios e praças, museus e belezas naturais e lugares históricos. Se você tiver sorte, você poderá ter a oportunidade de conversar com algumas pessoas nativas. Daí ao voltar para casa, você vai levar um monte de fotografias e cartões postais.
Mas se você ler um livro, você ganha uma passagem para o mais íntimo dos cantos de outro país e de outra gente. Ler um conto estrangeiro é um convite a visitar as casas de outras pessoas e os lugares íntimos de um outro país.
Se você é um simples turista, você poderá estar numa rua e ao olhar para uma casa antiga, na parte antiga de uma cidade, poderá ver uma mulher olhando pela janela. Em seguida você continua andando.
Mas se você é um leitor, você poderá ver a mulher olhando pela janela, mas você estará lá com ela, dentro do seu quarto e dentro da sua cabeça.
Ao ler um conto estrangeiro, no fundo você é convidado a adentrar as salas de outras pessoas, o quarto do bebê, a biblioteca, o quarto do casal. Você é convidado a adentrar suas mágoas secretas, suas alegrias familiares, seus sonhos.
É por isso que creio que a literatura é uma ponte entre os povos. Eu creio que a curiosidade pode ser uma qualidade moral. Eu creio que imaginar o outro pode ser um antídoto para o fanatismo. Imaginar o outro, fará de você não só um melhor empregado ou um melhor amante, mas acima de tudo uma melhor pessoa.
Parte da tragédia entre judeus e árabes é a incapacidade de tantos de nós, judeus e árabes a imaginar um ao outro. Realmente imaginar um ao outro: os amores, os medos terríveis, a raiva, a paixão. Há muita hostilidade entre nós, muita pouca curiosidade.
Judeus e árabes tem algo essencial em comum: ambos têm sido tratados brutal e coercitivamente pela mão violenta da Europa no passado. Os árabes através do
imperialismo, colonialismo, exploração e humilhações. Os judeus através de discriminação, perseguição, expulsão e ultimamente assassinato em massa numa
escala sem precedente.
Um pensaria que duas vitimas, e especialmente duas vitimas de um mesmo
opressor desenvolveria entre eles um senso de solidariedade. Na verdade, não é
assim que funciona, nem nos contos nem na vida.
Alguns dos piores conflitos são na verdade entre vitimas de um mesmo opressor – duas crianças de um pai violento não necessariamente se gostam. É comum verem no outro a imagem do pai abusivo.
E é exatamente o caso entre judeus e árabes no Oriente Médio. Enquanto os árabes consideram os Israelenses como Cruzados do últimos tempos, uma extensão da Europa branca e colonizadora; muitos Israelenses, de seu lado, consideram os
árabes como a nova encarnação de opressores do passado, criadores de carrascos e
Nazistas.
Essa situação cobra da Europa em particular uma responsabilidade para a solução do conflito israelense-árabe: ao invés de apontar o dedo para qualquer dos lados, os europeus deveriam estender empatia, compreensão e ajuda para os dois lados. Você não precisa escolher entre ser pró-Israel e ser pró-Palestina. Você tem que ser pró-paz.
A mulher na janela poderá ser uma mulher palestina em Nablus. Ela poderá ser uma mulher israelense judia em Tel Aviv. Se você quer ajudar a fazer a paz entre essas duas mulheres nessas duas janelas, é melhor você começar a ler sobre elas.
Leia contos, meus amigos. Eles vão lhe dizer muito.
É também oportuno para que cada uma dessas mulheres leia sobre a outra.
Aprender afinal o que torna a outra mulher na janela temerosa, raivosa ou esperançosa.
Não estou sugerindo que ler contos vai mudar o mundo. Eu sim sugiro, e assim creio, que ler contos é uma das melhores formas possíveis para se entender que todas as mulheres, em todas as janelas, ao final do dia estão urgentemente necessitadas de paz.
Literatura é arte. Conto é arte.

Hans Rookmaaker, um dos mais influentes pensadores cristãos da Arte e da Modernidade, foi um grande influenciador de Francis Schaeffer, e ambos são citados no livro Cristianismo Criativo de Steve Turner. Quero pegar uma citação de Rookmaaker: Arte não é religião, nem uma atividade relegada para uns poucos escolhidos, nem tampouco mundana, um assunto supérfluo. Nenhuma dessas visões é justa para com a criatividade que Deus agraciou o homem. É a capacidade de fazer algo bonito (assim como útil), da mesma maneira como Deus fez o mundo belo, e disse “É bom”.

Assim, arte não precisa de justificativa, ao invés disso, ela demanda uma resposta... A suprema justificativa para toda a criação é que Deus assim quis... Cristo morreu por nós para restaurar nossa humanidade, e trazer significado de volta para a criação de Deus... tudo na vida é cristão, a menos que queiramos fazer Cristo muito pequeno.

Parafraseando o Ed René Kivitz: Arte é cooperar com Deus para colocar ordem no caos ... cooperar na criação dEle.

A pergunta que deixo no ar: O que queremos ser? Marque a alternativa correta:
a) Pedra de Tropeço;
b) Ganhando o mundo e perdendo nossa alma;
c) Quakers isolacionistas;
d) Felizes turistas num passeio hedonístico pelo planeta terra;
ou
e) Sal e luz.

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